Abordagem

A conjuntivite aguda apresenta-se com olho vermelho e secreção, sem dor significativa, sensibilidade à luz ou perda da visão. Frequentemente, é difícil diferenciar clinicamente a conjuntivite alérgica, viral e bacteriana, pois pode haver uma sobreposição significativa nos sintomas de apresentação.

Conjuntivite alérgica

Todas as formas de conjuntivite alérgica são bilaterais. A doença geralmente está associada a uma secreção de muco líquida ou pegajosa, e o prurido como queixa primária deve estar presente para a realização do diagnóstico.[8] A doença leve a moderada geralmente apresenta conjuntiva edemaciada (quemose) com reação conjuntival papilar leve com pequena secreção de muco. Casos mais graves apresentam papilas grandes (gigantes) na conjuntiva das pálpebras, folículos límbicos e úlcera de córnea em escudo (estéril). A conjuntivite alérgica geralmente é sazonal ou perene e, muitas vezes, está associada a pacientes com uma história de dermatite atópica, febre do feno e/ou asma.[8]

A conjuntivite atópica, um tipo de conjuntivite alérgica, geralmente ocorre em adultos e está associada à dermatite atópica das pálpebras. A conjuntivite alérgica sazonal/perene é um distúrbio agudo com ciclo recorrente, enquanto a conjuntivite primaveril e atópica são doenças crônicas com exacerbações agudas.[1]​​[8]​ A conjuntivite sazonal e a conjuntivite perene representam 98% dos casos de alergia ocular.[8] A conjuntivite primaveril geralmente afeta homens jovens; a prevalência é maior em climas quentes e secos.[13][46][47]​​​​ A conjuntivite primaveril é agressiva e pode estar associada a úlceras de córnea em escudo. A conjuntivite atópica e a conjuntivite primaveril são raras e estão associadas ao ceratocone, um afinamento progressivo da córnea.[1][13]​​​

Conjuntivite bacteriana, aguda (não gonocócica)

A conjuntivite bacteriana aguda pode ser bilateral ou unilateral. Os sinais e sintomas unilaterais são mais comuns na infecção bacteriana que na viral.[18][19][20][45] Os pacientes geralmente se queixam de olho vermelho associado a ardência ou sensação de corpo estranho. Prurido é incomum.

A conjuntivite bacteriana aguda está associada a uma reação conjuntiva papilar, emaranhamento dos cílios e secreção purulenta. Não há linfadenopatia pré-auricular, como ocorre na conjuntivite bacteriana hiperaguda. A conjuntivite bacteriana pode estar associada com a otite média bacteriana concomitante, sinusite ou faringite.[1]​ Os patógenos bacterianos mais comuns na conjuntivite infecciosa incluem Pneumococcus, Staphylococcus aureus, Moraxella catarrhalis e Haemophilus influenzae.[18][19][20][Figure caption and citation for the preceding image starts]: Conjuntivite bacterianaDo acervo de Mr Hugh Harris; usado com permissão [Citation ends].com.bmj.content.model.Caption@1fd2da5a

Conjuntivite bacteriana hiperaguda (gonocócica)

É provável que a conjuntivite bacteriana hiperaguda seja causada por Neisseria gonorrhoeae. Isso está associado a secreção purulenta abundante, edema palpebral e quemose (edema da conjuntiva) que se desenvolve em 12 a 24 horas. Também pode haver úlceras periféricas na córnea, que podem causar perfuração da córnea. Tipicamente, o paciente é um adulto jovem sexualmente ativo; pode haver linfadenopatia pré-auricular. Uma coloração de Gram para diplococos é o principal recurso de diferenciação. Caso uma criança apresente essa condição, o abuso sexual deve ser descartado.[1][Figure caption and citation for the preceding image starts]: Conjuntivite gonocócicaCDC Image Library/Joe Miller; usado com permissão [Citation ends].com.bmj.content.model.Caption@6333f208[Figure caption and citation for the preceding image starts]: Conjuntivite gonocócica: resultou em cegueira parcialBiblioteca de Imagens do CDC; uso autorizado [Citation ends].com.bmj.content.model.Caption@24418477

Conjuntivite bacteriana por clamídia

A conjuntivite por clamídia é transmitida sexualmente e geralmente é encontrada em adultos jovens sexualmente ativos. Caso uma criança apresente essa condição, o abuso sexual deve ser descartado.[1]

Os pacientes geralmente apresentam secreção de muco ou uma secreção pegajosa, folículos conjuntivais e pano da córnea, e pode haver infiltrados na córnea. A presença de linfadenopatia pré-auricular é comum. Essa forma geralmente evolui para conjuntivite crônica. Aproximadamente 70% dos pacientes com clamídia ocular confirmada também têm clamídia urogenital, e devem ser encaminhados para investigação. Considere a coinfecção com gonorreia.[1]

A conjuntivite por clamídia que ocorre em países desenvolvidos também é conhecida como "conjuntivite de inclusão". É causada pelos sorotipos D a K da Chlamydia trachomatis e é transmitida sexualmente. A conjuntivite por clamídia causada por C trachomatis sorotipos A, B e C é conhecida como tracoma e é principalmente limitada a áreas sem acesso adequado a água potável e saneamento.[1]​ Consulte Tracoma.

Conjuntivite viral

A causa mais comum de conjuntivite viral é adenovírus.​[24][53]​​​​​ A conjuntivite adenoviral geralmente começa de maneira abrupta em um olho e se dissemina para o outro alguns dias depois. Frequentemente está associada com exposição a uma pessoa infectada ou com sintomas recentes no trato respiratório superior. Os pacientes se queixam de olho vermelho com prurido, ardência ou sensação de corpo estranho associado a lacrimejamento ou secreção de muco e linfadenopatia pré-auricular. Os pacientes podem apresentar folículos conjuntivais. Pode haver infiltrados subepiteliais na córnea.

A conjuntivite herpética (vírus do herpes simples ou vírus da varicela-zóster) geralmente é unilateral e apresenta vesículas nas pálpebras, mas pode se apresentar de maneira indistinguível do adenovírus. O molusco contagioso manifesta-se principalmente em crianças mais velhas e adultos jovens; um estado de imunocomprometimento pode ser um fator de risco.[1][Figure caption and citation for the preceding image starts]: Conjuntivite viralDo acervo de Robert Sambursky, MD; usado com permissão [Citation ends].com.bmj.content.model.Caption@5a226b0b

Avaliação laboratorial

Em casos de suspeita de conjuntivite infecciosa, o imunoensaio rápido para adenovírus pode ser considerado para identificar a conjuntivite adenoviral, a forma mais comum de conjuntivite aguda.[1][54][55][56]​ Foram relatados valores de sensibilidade entre 85% e 93%, e de especificidade entre 94% e 99%.[57][58]​ Os exames diagnósticos para adenovírus podem ajudar a prevenir diagnósticos errados, a transmissão da doença, o uso desnecessário de antibióticos e o aumento dos custos com saúde.[1]​ No entanto, eles não são usados rotineiramente na prática clínica.[1]

Deve-se realizar culturas conjuntivais e esfregaços para citologia e colorações especiais (por exemplo, Gram, Giemsa) em todos os neonatos com suspeita de conjuntivite infecciosa.[1]​ A cultura bacteriana pode ser útil para pacientes com conjuntivite purulenta recorrente, grave ou crônica. A cultura para conjuntivite de rotina é precisa e confiável, mas pode não ser solicitada devido ao tempo necessário para obter o resultado.[1]

A conjuntivite hiperaguda requer uma coloração de Gram, para identificar diplococos Gram-negativos, e cultura celular (ágar chocolate), para excluir a N gonorrhoeae.[22] A suspeita de conjuntivite por clamídia pode ser confirmada com exames laboratoriais, como reação em cadeia da polimerase ou cultura celular.[1][59]

Conjuntivite alérgica

O teste cutâneo para alergia e a medição os níveis de imunoglobulina E nas lágrimas podem ser úteis em casos de conjuntivite alérgica mais grave.

Os testes cutâneos de alergia podem identificar alérgenos específicos a serem combatidos com imunossupressão, enquanto os níveis de imunoglobulina E nas lágrimas auxiliam no diagnóstico da conjuntivite alérgica e na avaliação da sua gravidade.​[1][44]

Conjuntivite não infecciosa

A conjuntivite não infecciosa geralmente pode ser diagnosticada com base na história do paciente.

A exposição química direta do olho pode indicar conjuntivite tóxica/química. Em casos de suspeita de lesão por respingo químico, o pH ocular deve ser testado, e a irrigação do olho continuada até que o pH seja 7.

A conjuntivite pode ser causada pelo uso de lentes de contato ou por irritação mecânica da pálpebra. A síndrome da pálpebra flácida, que está associada à obesidade e à apneia do sono, pode causar inversão crônica da pálpebra superior e trauma mecânico durante o sono.

O uso de certos medicamentos, como tratamentos tópicos para glaucoma (por exemplo, inibidores da anidrase carbônica, betabloqueadores, análogos de prostaglandina), antibióticos tópicos (por exemplo, neomicina), antivirais tópicos (por exemplo, ganciclovir), anti-histamínicos orais (por exemplo, loratadina, difenidramina) ou medicamentos anticolinérgicos (por exemplo, atropina) podem irritar o olho e causar conjuntivite.[1]

A conjuntivite neoplásica é causada por um carcinoma da glândula sebácea.[49]​ Com carcinoma da glândula sebácea, pode haver uma massa rígida, nodular e imóvel na placa tarsal. A radioterapia para este tipo de câncer pode induzir alterações patológicas na conjuntiva, incluindo perda de células caliciformes e glândulas lacrimais acessórias, causando secura e irritação.

Neoplasia escamosa da superfície ocular, melanoma e linfoma conjuntival também podem estar associados à conjuntivite.[1]​ Pode haver uma história de radioterapia ultravioleta em pacientes com neoplasia escamosa da superfície ocular e melanoma; uma história de infecção pelo papilomavírus humano (HPV) pode ser relatada em um paciente com neoplasia escamosa da superfície ocular.[1]​ Doenças autoimunes podem predispor ao linfoma conjuntival.[60][61]

Encaminhamento a um especialista

Os seguintes fatores podem indicar uma condição mais séria, e o encaminhamento a um oftalmologista deve ser considerado: história de trauma, doença reumatoide, uso de lentes de contato, dor significativa, perda da visão, sensibilidade à luz, pupila irregular ou fixa, defeito pupilar aferente, secreção purulenta grave, cicatrização conjuntival, falta de resposta ao tratamento, episódios recorrentes, história de conjuntivite pelo vírus do herpes simples (HSV), história de imunocomprometimento ou envolvimento corneano (por exemplo, mancha branca na córnea).[1]

A American Academy of Ophthalmology apoia o encaminhamento imediato e apropriado dos indivíduos a um oftalmologista quando apresentarem comprometimento visual, inclusive devido a inflamação das pálpebras ou conjuntiva, com ou sem secreção.[62]

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