Prevenção primária

A educação do paciente sobre como controlar o diabetes durante períodos de doença leve (regras para dias de doença) é vital para prevenir a cetoacidose diabética (CAD). Aconselhe os pacientes sobre os potenciais fatores precipitantes e os sintomas de alerta precoce da CAD. Considere as seguintes medidas:[2][20]

  • Revisão do controle glicêmico habitual

  • Revisão da técnica de injeção, monitoramento da glicose sanguínea, equipamentos e locais de injeção

  • Verificar a insulina do paciente antes do uso (ela pode estar vencida ou desnaturada)

  • Avaliação da necessidade de fornecimento de medidores portáteis de cetona para uso doméstico

  • Fornecimento de informações sobre como contatar a equipe de especialistas em diabetes fora do horário comercial

  • Fornecimento de um plano de cuidados por escrito (incluindo "regras para dias de doença") que permita ao paciente assumir um papel ativo no controle do diabetes, com uma cópia enviada ao seu clínico geral.

Tecnologias para o tratamento do diabetes, como a terapia com bomba de insulina e o monitoramento contínuo de glicose (MCG), podem ser usadas para reduzir o risco de CAD.[6][55]​​​​ No Reino Unido, o National Institute for Health and Care Excellence (NICE) recomenda que todos os pacientes com diabetes mellitus do tipo 1 tenham acesso ao MCG.[56]​ O uso de MCG em pacientes com diabetes do tipo 1 (independentemente do método de administração de insulina) demonstrou reduzir significativamente as hospitalizações por CAD, diminuir a HbA1c, reduzir eventos hipoglicêmicos graves e aumentar o tempo dentro da faixa glicêmica ideal.[57]​ O NICE também recomenda oferecer MCG a adultos com diabetes do tipo 2 se eles:[58]

  • fazem uso de múltiplas injeções diárias de insulina e apresentam:

    • hipoglicemia recorrente ou hipoglicemia grave, ou

    • percepção prejudicada dos episódios de hipoglicemia, ou

    • uma condição ou deficiência que os impede de monitorar a glicose sanguínea por meio de automonitoramento da glicose sanguínea (SMBG), mas permite o uso de um dispositivo de CGM, ou

    • sem o MCG teriam recomendação para se automoniorarem pelo menos 8 vezes ao dia.

  • sendo tratados com insulina e precisariam da ajuda de um profissional da saúde para monitorar a glicemia.

Gestantes com diabetes do tipo 1 devem ser aconselhadas sobre o aumento do risco de CAD durante a gravidez, como evitá-la e reconhecê-la, e devem receber ferramentas de monitoramento de cetonas, visto que a CAD na gravidez está associada a um alto risco de natimorto.[6]

A CAD associada a inibidores da proteína cotransportadora de sódio e glicose 2 (SGLT2) e a inibidores duplos de SGLT1/SGLT2 é rara em pacientes com diabetes do tipo 2, pode apresentar-se com euglicemia e é tipicamente precipitada por omissão ou redução significativa da dose de insulina, doença aguda grave, desidratação, exercício físico intenso, cirurgia, dietas com baixo teor de carboidratos (por exemplo, dieta cetogênica), jejum prolongado ou ingestão excessiva de álcool.[6]​ A American Diabetes Association (ADA) recomenda que esses medicamentos sejam evitados em casos de doenças graves, em pessoas com cetonemia ou cetonúria, e durante jejum prolongado e procedimentos cirúrgicos.[6]​ Pacientes tratados com inibidores de SGLT2 ou com o inibidor duplo de SGLT1/SGLT2 sotagliflozina (especialmente pacientes com diabetes do tipo 1 ou diabetes do tipo 2 propensos à cetose e/ou aqueles em dieta cetogênica) devem ser informados sobre o risco de CAD e como preveni-la e reconhecê-la, além de receberem ferramentas para medir seus níveis de cetonas.[6]​ As estratégias de prevenção da CAD devem incluir a suspensão desses medicamentos quando houver fatores precipitantes (por exemplo, suspender o uso 3 a 4 dias antes de uma cirurgia programada) e evitar a omissão de insulina ou grandes reduções na dose de insulina.[59][60]​​ Um exemplo de estratégia de mitigação de risco é o protocolo "STOP DKA", desenvolvido para pacientes com diabetes do tipo 1 em uso de inibidores de SGLT2 ou sotagliflozina: os pacientes são orientados a ficarem atentos aos sintomas de CAD, como letargia, perda de apetite, náuseas e dor abdominal, e, caso presentes, a interromper o uso do inibidor de SGLT2 ou da sotagliflozina, verificar os níveis de cetonas no sangue, manter a ingestão de líquidos e carboidratos e utilizar insulina de manutenção e suplementar.[61]

Muitos casos de CAD podem ser prevenidos por meio de melhor acesso a cuidados médicos, educação adequada do paciente e comunicação eficaz com os profissionais da saúde durante doenças intercorrentes. A omissão ou o uso insuficiente da insulinoterapia continua sendo uma das principais causas de internações por CAD.[1]​ Os hospitais devem garantir que as doses de insulina basal não sejam omitidas ou atrasadas para os pacientes internados, principalmente durante as transições de cuidados, por meio do uso de alertas eletrônicos e orientação contínua da equipe.[6]

Décadas de pesquisa e monitoramento de indivíduos com positividade para autoanticorpos contra ilhotas pancreáticas levaram a uma mudança de paradigma que reconhece o diabetes do tipo 1 como um espectro de estágios, desde o risco genético até a autoimunidade e, por fim, a doença metabólica.[62]​ Essa compreensão em evolução aumenta a possibilidade de intervenção precoce em indivíduos de alto risco, o que poderia facilitar o diagnóstico precoce e ajudar a prevenir complicações como a CAD. Consulte Rastreamento.

Prevenção secundária

A nova internação após um episódio de cetoacidose diabética (CAD) é comum, com estudos sugerindo que uma proporção significativa de pessoas é novamente internada em até 30 dias, frequentemente devido à CAD recorrente.[39][40]​​ A omissão ou o uso inadequado da insulinoterapia é uma das principais causas de internações, tanto iniciais quanto recorrentes. Os fatores psicossociais e comportamentais que contribuem para o quadro devem ser identificados e abordados antes da alta hospitalar. A avaliação das causas precipitantes e contribuintes da internação por CAD e o acompanhamento rigoroso até 2 a 4 semanas após a alta podem reduzir a CAD recorrente.[1]

Todos os pacientes devem receber educação personalizada antes da alta, com foco tanto no episódio atual quanto em aspectos mais amplos do autocuidado do diabetes.[1]​ Isso inclui orientações sobre administração de insulina, técnica de injeção, monitoramento de glicose e cetonas (no sangue ou na urina), controle de doenças intercorrentes e reconhecimento de sinais precoces de deterioração.[1]​ Os pacientes e seus cuidadores também devem receber instruções claras sobre quando e como procurar orientação médica.[1]

Na alta hospitalar, deve ser fornecido um suprimento adequado de insulina e equipamentos para monitoramento de glicose/cetonas.[1]​ Os dados de contato da equipe de diabetes ou dos serviços comunitários também devem ser compartilhados.[1]​ Programas estruturados de educação sobre diabetes, especialmente aqueles que incluem habilidades de resolução de problemas, podem ajudar a reduzir o risco de cetoacidose diabética (CAD) futura e devem ser oferecidos ou retomados após a recuperação.[177]

Um relatório de consenso sobre diabetes do tipo 1 da American Diabetes Association (ADA) e da European Association for the Study of Diabetes (EASD) recomenda o monitoramento contínuo da glicose (MCG) como o método de monitoramento de escolha para a maioria das pessoas com diabetes do tipo 1.[178]​ O MCG é superior ao monitoramento capilar da glicose sanguínea para melhorar os padrões glicêmicos entre pacientes tratados com insulina com diabetes do tipo 1 e diabetes do tipo 2, especialmente aqueles com níveis de glicose fora da faixa normal.[1]​ OS resultados de um estudo nacional na França relataram que o acesso a um sistema de MCG foi associado a uma redução subsequente na taxa de hospitalizações por CAD em 53% e em 47% no diabetes do tipo 1 e diabetes do tipo 2, respectivamente.[172] Esses resultados foram observados tanto em pacientes tratados com insulina em múltiplas doses quanto naqueles tratados com terapia de infusão contínua de insulina (bomba).[173]​ Embora o monitoramento contínuo de glicose (CGM) não tenha sido aprovado para uso em pacientes hospitalizados com diabetes ou com CAD, as diretrizes de consenso da ADA, EASD, American Association of Clinical Endocrinology, Joint British Diabetes Societies for Inpatient Care, and Diabetes Technology Society recomendam que o CGM seja oferecido a pessoas internadas com CAD pouco antes ou depois da alta hospitalar.[1]

Antes da alta, avalie a presença de quaisquer problemas de saúde mental, questões de proteção ou vulnerabilidades sociais, incluindo insegurança habitacional, baixo nível de conhecimento sobre saúde e insegurança alimentar.[1][168]​ Há evidências que relacionam condições psiquiátricas (como depressão, esquizofrenia e distúrbios alimentares) à cetoacidose diabética recorrente e ao controle glicêmico inadequado.[1]​ Uma internação hospitalar por cetoacidose diabética (CAD), especialmente se recorrente, deve levar em consideração a avaliação psiquiátrica ou o encaminhamento para serviços de saúde mental.[36]

O uso deste conteúdo está sujeito ao nosso aviso legal